quinta-feira, 16 de junho de 2011

A SECA NA TERRA DOS BICHOS


Faltava chuva naquela região, os animais poderiam ter dificuldades com a falta de água.
Segundo o gavião maca ó e a seriema, não iria chover tão cedo. Somente na próxima primavera as chuvas voltariam.
O rei leão resolveu convocar uma reunião. Haveria necessidade de fazer um poço. Todos os bichos deveriam unir-se.
A juriti, a araponga e a pomba ficaram incumbidas de espalhar a notícia: “A união faz a força. Se ficarmos unidos não faltará água. Um grão de areia retirado na escavação também é um trabalho significativo.”
Esta foi a mensagem escolhida pela secretária corsa.
O cavalo resmungou:
- De qualquer jeito morrerei! Se não morrer carregando água para outros bichos, então morrerei de sede!
A preguiça saiu de sua árvore uma semana antes do dia da reunião a fim de chegar a tempo. Disse que depois iria se mudar para uma árvore bem próxima do poço.
A cutia passou por lá e deixou um recado: - Não morrerei trabalhando. Sou esperta e darei um jeito. Sei onde buscar água. Os outros também irão trabalhar por mim.
O macaco era desconfiado e pensou:
- Isto pode ser um velho truque do leão. Não tenho certeza se haverá volta para quem for.
Portanto, primeiro certificou-se do alto de uma árvore se os bichos estavam mesmo reunidos no local marcado. Entretanto todos estavam lá.
O local escolhido para cavar o poço foi à beira do regato do jaboti. O mestre tatu disse que ali nunca faltou água. Decerto havia uma mina subterrânea.
Todos os animais atenderam ao chamado e em poucos dias o poço estava pronto.
Como não havia eletricidade. A água era retirada do fundo do buraco, dentro de um balde de cerâmica puxado por um cipó. Havia algumas dificuldades, mas estava funcionado muito bem.
A cutia foi a única que não participou. Disse que estava muito ocupada. Ela se gabava da sua inteligência.
Os bichos em reunião resolveram castigar a cutia. Ela estava proibida de beber a água que minasse no poço.
O leão determinou que cada noite um bicho ficasse de guarda para não deixar a cutia beber água. Durante o dia não haveria problema, uma vez que alguém sempre estaria por perto.
Assim foi feito. Na primeira noite ficaria o urso. Era um animal robusto com braços enormes e daria uma patada na cutia caso ela se aproximasse.
A cutia chegou desconfiada. Primeiro certificou-se quem era o guarda. Quando percebeu que era o dorminhoco urso, até sorriu. Sabia onde arrumar um bom mel de abelha. Trouxe uma garrafinha
Veio cantando: - “Que mel delicioso, que melado cheiroso, até o polar vai se deliciar”.
O urso quis criar obstáculos, todavia estava sonolento. A cutia molhou a ponta de uma varinha com mel e deu para o urso experimentar:
- Prove que você vai ver que delícia. É mel de abelha Europa, até a comadre raposa gostou.
Além de tudo ela ainda fazia fofoca.
Ele não resistiu e pediu mais e mais. Logo caiu num sono profundo e a cutia levou uma garrafada de água.
O macaco já estava convocado para o segundo dia. Ficou muito atento em cima de um galho. Na primeira investida da cutia deu-lhe muitos tapas.
Entretanto a cutia roubou algumas bananas do bananal do orangotango seu rival. E veio com seu costumeiro papo:
- Estão tão cheirosas e são da espécie banana prata. Eu sei que o amigo macaco há muito não come desta banana. Prove só uma.
O macaco também não resistiu à lábia da cutia. Em pouco tempo ela partia com uma garrafada.
Na terceira noite foi convocada a onça por ser um bicho muito feroz e valente.
A cutia era demais esperta e ficou sabendo adiantado, pois os próprios bichos foram gozar na sua cara que desta vez ela passaria sede.
Era o que a cutia queria. Correu dar uma de dedo duro a um fazendeiro da região. A onça havia atacado seus bezerros e o homem queria ajustar contas com a felina. Não deu outra. A onça, a principio, farejou-os e quis enfrentá-los. Porém eram muitos caçadores com cachorros, armados até os dentes. Após quase levar chumbo, ela foi obrigada fugir em disparada.
O terreno ficou livre e a cutia encheu duas garrafadas de água.
O leão soube das diabruras da cutia e ficou furioso:
- Será que eu terei de ficar de plantão? Que bicharada mole e dorminhoca!
O cágado se prontificou ficar de vigilante. Alguns bichos caíram na risada:
- O jaboti e mais lento que a tartaruga! Ele não serve nem para vigiar duas lesmas!
Como ele insistiu e outros bichos estavam se acovardando o leão resolveu dar-lhe uma chance.
- Qual equipamento você precisa. – Perguntou o leão ao cágado.
- Não preciso de nada. Amanhã, vocês me trazem uma boa ração de tomates e verduras.
- Não subestime a esperteza da cutia. Ela é astuta, você verá.
- Deixe comigo, eu tenho meus recursos.
A mina era ótima e o poço estava cheio até a boca. O cágado se meteu na beirinha do poço. Ficou só com as costas de fora.
A cutia chegou atenta e não viu nenhum bicho na guarda. Ficou encucada:
- Será que desistiram da vigilância. Eu os venci. Puxa! Hoje até tem uma pedrinha para eu lavar os meus pés.
Enfarou-se de água e encheu a garrafa. Poderia ter ido embora. Mas sentou-se no barranco para banhar-se melhor. Depois acabou apoiando todo seu peso na pedra.
O cágado deu um profundo mergulho. Dentro d’água tinha ele suas qualidades. Ele nadava e mergulhava muito bem.
A cutia não sabia nadar e do outro lado o barranco era alto. Ela pererecou, pererecou, todavia acabou morrendo afogada.
O jabuti só teve o trabalho de empurrar o corpo sem vida para o barranco.





A FALSA APARÊNCIA


Simplício, um rapaz solteiro, bom aspecto, alto, de alguma posse, porém muito tímido. Ele queria casar. Entretanto não encontrava a moça certa, tinha alguma dificuldade devido seu acanhamento.
Foi aconselhado procurar uma fada que havia nas redondezas.
A fada indica uma lagoa no meio do mato onde três jovens costumavam nadar. Elas chegavam até ali voando.
Ela também o aconselha:
- Deverá chegar sorrateiramente para não assustá-las. Elas deixam suas penas sobre uma pedra. Escolha a melhor pena. Examine a qualidade e o estado de conservação. A pena mais bem cuidada pertence à moça mais prestimosa, mais fiel e melhor companheira. Portanto será essa que você deverá escolher. Não se iluda pelas aparências físicas das moças. Não se prenda às superficialidades e exterioridades das jovens. Não esqueça deste versinho:
“Se deitar olho à moça,
Sua aparência o seduz.
Todavia, se abrir melhor seus olhos,
Percebê-la-á sobre uma outra luz.”
- Se escolher a pena correta, ela logo se identificará com você. Somente uma das moças sentirá plenamente realizada e nunca tentará ir embora.
Ele chega bem cedo e espera as moças pousarem à margem da lagoa. Elas deixam suas penas enfiadas em orifícios existentes em uma pedra.
Porém ele não se decide apanhar a pena em melhor estado de conservação.
Ele espiona secretamente as três jovens seminuas voltarem do banho. Elas vestem suas roupas quentes e pegam suas penas e partem para a terra dos devaneios.
Ele já deveria ter chegado até a pedra e escolhido a pena com melhor trato. No entanto ele resolveu conhecer primeiro as três jovens e fica apaixonado pela mais formosa. Ele é atraído por aquela que tem o contorno mais refinado, por conseqüente o corpo mais perfeito.
Ele marca as posições de onde as três jovens retiram suas penas e depois vai dar uma checada na pedra.
Cada pena ficou com a ponta cravada em um pequeno orifício. Nesses orifícios estão gravados os nomes das jovens. Examina atentamente aquele buraco da direita, justamente o pertencente à pena da moça que mais chamou sua atenção.
Ela chamava-se Perfildosa. Logo vem a sua mente. Perfil de mais belo perfil. O Osa deveria referir-se a formosa, sim, ela era a mais deleitosa.
A segunda chamava-se Pacita. Seria de paciência ou pacifica? Somando o ita da dureza da pedra, do ferro, seria uma garota de paz, mas de muita resistência.
A terceira chamava-se Sóbria. Entendeu-a como uma moça que se sente melhor sozinha. Como uma planta solitária. Embora tivesse uma relação com sóbrio.
Conforme instrução da fada, ele não deveria comparar as jovens, e sim, comparar as penas. Ele errou e primeiro fez alguma comparação entre as jovens. Como elas estavam um pouco afastadas, a escolha foi de modo superficial, somente pelas aparentes estruturas físicas.
No dia seguinte, nosso jovem ficou escondido. Deixa as moças colocarem suas penas nos orifícios da pedra e atirarem-se às águas.
Em seguida, aproximou-se do local das penas. Ele agora iria tentar escolher a pena que mais lhe chamasse a atenção. Seria pelo estado de conservação, pela aparência geral, pelo tamanho, pela solidez e resistência da raque. Ou seria pela quantidade de barbas, se as mesmas eram limpas, se não havia falhas, se não estavam enroladas ou tortas.
Ele examina primeiro a pena pertencente à moça que chamara sua atenção. Percebe ausência de algumas barbas. Algumas estão grudadas entre si. Presta atenção no eixo. Depois examina outra pena e percebe uma raque muito mais forte, como fosse feito de um material melhor. As barbas estão bem conservadas, não há falhas, estão completas e esticadas. Há uma perfeita continuidade. Ele esfrega essa pena em sua barba conforme instruíra a fada. Ele percebe que essa pena é uma pena especial. A moça recebe o estímulo e tenta aproximar-se. Porém ele a recoloca no orifício.
Agora ele inicia o exame da terceira pena. Porém, mal tem tempo de segurá-la, o pássaro conhecido como bente vi, como fosse um guardião, ataca-o com fúria. Ele assusta e, com receio de chamar atenção das moças, devolve-a ao seu lugar.
As jovens púdicas sentem sensações estranhas quando suas penas são estimuladas. Porém elas não conseguem decifrar o que acontece.
Todavia o homem é atacado pelo cupido. Ele esquece os conselhos e opta pela pena da mulher mais formosa. Ele a toma e se esconde no mato a espera que a dona a procurasse para voar.
Elas terminam o banho e procuram suas penas. Pacita e Sóbria levantam vôo e vão embora um tanto amedrontadas. Perfildosa não encontra sua pena e fica desesperada. No entanto ele logo vem acalmá-la:
-Você foi a escolhida. Agora você irá a minha casa. Nós ficaremos noivos e marcaremos nosso casamento para bem breve. Sua pena me pertence e você estará presa ao coração do homem que a possui.
A moça aos poucos compreende a situação. Ela também deverá amar o detentor da pena.
Ele leva a moça para sua casa e esconde a pena numa caixinha no alto, próximo ao telhado.
Começam os preparativos para o casamento. Tudo transcorria normalmente. Porém a moça sente saudades de sua terra e de sua família.
Ela nota aquela caixa amarrada no telhado e sente uma curiosidade de ver o que ela guarda.
O rapaz saiu para o trabalho e ela arruma uma escada e mexe na caixa. Reencontra sua pena. Experimenta e descobre que tem condições de voar.
Antes de partir escreve-lhe um bilhete:
“Eu sigo para Terra dos Devaneios. Se me amas de fato, deverás descobrir onde ela fica e buscar-me, como prova do teu grande amor.”
Ele volta pedir socorro à fada. Esta, por sua vez, repreende-o:
- Eu o aconselhei escolher a melhor pena, pela resistência e grossura da raque e pelo melhor acabamento e conservação das cerdas. Nunca deveria observar as jovens e influenciar-se pela sedução.
- Mas eu lhe darei mais uma chance. Quem conhece bem a Terra dos Devaneios e a nossa amiga lua. Ela, com seus raios prateados, conhece todos os rincões da terra.
O rapaz no desespero parte para consultar a lua. Somente encontra uma velhinha:
- Ela voltará na próxima manhã. Esconda-se neste quarto, pois ela costuma chegar com muita fome.
Não demorou e a lua adentrou-se à casa exausta e faminta.
- Está cheirando carne humana. Sinto que ela está próxima.
- Não, minha filha. Você está com muita fome. Almoce bastante e verá como o odor desaparece.
Após alimentar-se à vontade, a lua foi informada da presença do homem:
- Eu ilumino todos os recantos da terra. Porém nunca avistei esse lugar. Deve ficar na região polar. Somente os raios solares iluminam-na no verão astral.
O moço partiu à procura do sol. Chegou ao começo do dia e novamente ficou escondido em um quarto escuro. Ele só retornaria à noite.
O sol voltou para casa e reclamou do cheiro humano. Novamente sua mãe deu-lhe bastante comida.
Quando perguntado se conhecia a Terra dos Devaneios, respondeu:
- Somente o vento consegue atingir aquela região. Ela fica escondida atrás de uma enorme cordilheira.
O moço então segue à procura do vento. O vento informa que somente seu primo Minúvio conhecia aquela terra:
- Agasalhe-se bem e vista esse capuz. Tome carona na minha garupa. Quando sentir um frio quase irresistível no rosto e nos pés, avise-me para eu parar.
Assim foi feito. Quando o rapaz estava com os pés quase congelados reclamou:
- Sim, já chegamos. Eu parto para outras terras. Você tomará carona na garupa de meu primo Minúvio.
O rapaz encontrou-se com o vento chamado Minúvio:
- Você teve sorte. Agora mesmo eu sigo para aquela cordilheira. Monte em minha garupa e feche os olhos. Quando sentir alguns jatos de água quente em seu rosto, abra os olhos. É sinal que lá chegamos.
O rapaz obedeceu direitinho. Quando abriu os olhos deparou com uma terra maravilhosa. Havia bastante água brotando de gêiser. Ficava numa cadeia de montanhas, com muito verde e florida.
Saltou da garupa e foi procurar a moça. Ele encontra uma sábia senhora que se diz protetora e conselheira das jovens.
- Então, veio procurar sua noiva? Elas estão muito ocupadas. Em cima deste armário estão as três penas. Você poderá examinar detalhadamente as três. Se escolher a pena correta, eu acredito que a jovem seguirá com você.
Desta vez o viajante solteiro escolheu a pena correta.
Assim que a tocou e acariciou seu rosto com as barbas da pena, a jovem Pacita apareceu e prontificou-se viajar de volta até sua terra, ou poderiam ficar morando naquela linda cordilheira.
POP ART

Movimento principalmente americano e britânico, sua denominação foi empregada pela primeira vez em 1954, pelo crítico inglês Lawrence Alloway, para designar os produtos da cultura popular da civilização ocidental, sobretudo os que eram provenientes dos Estados Unidos.
Com raízes no dadaísmo de Marcel Duchamp, o pop art começou a tomar forma no final da década de 1950, quando alguns artistas, após estudar os símbolos e produtos do mundo da propaganda nos Estados Unidos, passaram a transformá-los em tema de suas obras.
Representavam, assim, os componentes mais ostensivos da cultura popular, de poderosa influência na vida cotidiana na segunda metade do século XX. Era a volta a uma arte figurativa, em oposição ao expressionismo abstrato que dominava a cena estética desde o final da segunda guerra. Sua iconografia era a da televisão, da fotografia, dos quadrinhos, do cinema e da publicidade. Com o objetivo da crítica irônica do bombardeamento da sociedade pelos objetos de consumo, ela operava com signos estéticos massificados da publicidade, quadrinhos, ilustrações e design, usando como materiais principais, tinta acrílica, poliéster, látex, produtos com cores intensas, brilhantes e vibrantes, reproduzindo objetos do cotidiano em tamanho consideravelmente grande, transformando o real em hiper-real. Mas ao mesmo tempo que produzia a crítica, a Pop Art se apoiava e necessitava dos objetivos de consumo, nos quais se inspirava e muitas vezes o próprio aumento do consumo, como aconteceu por exemplo, com as Sopas Campbell, de Andy Warhol, um dos principais artistas da Pop Art. Além disso, muito do que era considerado brega, virou moda, e já que tanto o gosto, como a arte tem um determinado valor e significado conforme o contexto histórico em que se realiza, a Pop Art proporcionou a transformação do que era considerado vulgar, em refinado, e aproximou a arte das massas, desmitificando, já que se utilizava de objetos próprios delas, a arte para poucos. Principais Artistas:
Robert Rauschenberg (1925) Depois das séries de superfícies brancas ou pretas reforçadas com jornal amassado do início da década de 1950, Rauschenberg criou as pinturas "combinadas", com garrafas de Coca-Cola, embalagens de produtos industrializados e pássaros empalhados.
Por volta de 1962, adotou a técnica de impressão em silk-screen para aplicar imagens fotográficas a grandes extensões da tela e unificava a composição por meio de grossas pinceladas de tinta. Esses trabalhos tiveram como temas episódios da história americana moderna e da cultura popular.

Roy Lichtenstein (1923-1997). Seu interesse pelas histórias em quadrinhos como tema artístico começou provavelmente com uma pintura do camundongo Mickey, que realizou em 1960 para os filhos. Em seus quadros a óleo e tinta acrílica, ampliou as características das histórias em quadrinhos e dos anúncios comerciais, e reproduziu a mão, com fidelidade, os procedimentos gráficos. Empregou, por exemplo, uma técnica pontilhista para simular os pontos reticulados das historietas. Cores brilhantes, planas e limitadas, delineadas por um traço negro, contribuíam para o intenso impacto visual.
Com essas obras, o artista pretendia oferecer uma reflexão sobre a linguagem e as formas artísticas. Seus quadros, desvinculados do contexto de uma história, aparecem como imagens frias, intelectuais, símbolos ambíguos do mundo moderno. O resultado é a combinação de arte comercial e abstração.

Andy Warhol (1927-1987). Ele foi figura mais conhecida e mais controvertida do pop art, Warhol mostrou sua concepção da produção mecânica da imagem em substituição ao trabalho manual numa série de retratos de ídolos da música popular e do cinema, como Elvis Presley e Marilyn Monroe. Warhol entendia as personalidades públicas como figuras impessoais e vazias, apesar da ascensão social e da celebridade. Da mesma forma, e usando sobretudo a técnica de serigrafia, destacou a impessoalidade do objeto produzido em massa para o consumo, como garrafas de Coca-Cola, as latas de sopa Campbell, automóveis, crucifixos e dinheiro.
Produziu filmes e discos de um grupo musical, incentivou o trabalho de outros artistas e uma revista mensal.
CULTURA E INDÚSTRIA DA VIOLÊNCIA
Bruno Luiz Pelikan Teixeira

RESUMO

Darwin já dizia que só sobrevivem os mais bem preparados. E na história da humanidade não é diferente, a busca pelo poder, glória e fortuna corrompem os humanos, e por trás disso sempre há a violência. Dizer que esta nunca existiu ou que só existe agora é não considerar que a humanidade se dá através de dominação de classes, e que esta sempre houve desde os mais primórdios resquícios de vida humana perpetuado por diversas formas de violência. Esta é sempre a ponte para algum interesse, é o elo, seja para buscar o poder, capital, glória, prazer, etc. Ninguém pratica a violência por praticar, e sim para se alcançar um fim, e quando enxergamos isso, vemos que ela está muito mais presente do que possamos imaginar. Quiçá o que nos faz preocupar com esse tema somente agora, seja o fato da violência estar batendo em portas que antes não batia. Se antes a violência era um privilégio das classes nobres para perpetuar a dominação e o status quo, hoje, podemos falar em democratização da violência, e o que vai, volta, e classes que antes não tinha essa arma, agora a possuem, e classes que jamais achavam que ela se voltaria contra si, agora se voltam.

Palavras-chave: Humanidade. Poder. Violência. Dominação. Classes.


1. INTRODUÇÃO

Pensar na humanidade sem pensar em violência é absolutamente inconcebível. Ademais, achar que a violência é fato novo é pensamento individualista de quem nunca se preocupou com a sociedade como um todo e nunca saiu de seu casulo. A história dos humanos é marcada por violência, e digo violência não apenas no sentido mais óbvio e táctil, da violência física, escancarada, vista em guerras e massacres por aí afora. Há de se pensar além desse conceito e visualizar outras formas de violência, e outros fins a qual ela se destina, usadas pelos homens.
É preciso abster de pré-conceitos estigmatizantes hoje vendidos pela mídia, como por exemplo, de que a violência é algo inerente às classes populares, e de que em sua maioria é praticada por jovens negros favelados.
A violência está em todos os cantos, seja rico ou pobre; sob diversas formas, com diversas características e causas, e conseqüentemente, deve ser tratada com diagnósticos díspares, por isso sua tamanha complexidade. Falaremos, aqui, da difusão da violência nos dias atuais, do cerne, e não somente no que mais comumente se conhece como violência, aquela escancarada, a que se traduz em crimes. Passaremos por conseguinte à análise do que pode se dizer que é o ponto chave para se entender melhor como a violência funciona: a instrumentalidade. Inobstante, antes de concluir esse breve trabalho, falaremos da violência criminal, aquela que nos faz presente nos dias-dias, traduzida em homicídios, tráfico de armas e drogas e etc, estigmatizada como aquela produzida pelos pobres e favelados.

2. DIFUSÃO DA VIOLÊNCIA

Desde os mais antigos resquícios de sociedade do nosso antepassado, vemos presente a violência, como por exemplo, no feudalismo. Esta era usada para manter o status quo da divisão de classes. Através de violência como: miséria, fome e o medo, os senhores feudais mantinham a dominação sob os servos e camponeses, ou em outras palavras, essa sociedade era “caracterizada pela segregação dos homens em estratos sociais hierarquizados” (RIBEIRO, p. 43).
Como bem diz Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, Professor da UFRJ e autor de um artigo relacionado ao tema, foi com a democracia e a formação de vida urbana propriamente dita que o homem desvinculou-se das relações de dominação pessoal, marcas do feudalismo, ademais, é na cidade que o homem adquire a emancipação material e moral:

Os cidadãos urbanos usurparam o direito de dissolver os laços da dominação senhorial – e esta foi a grande inovação, de fato, a inovação revolucionária das cidades medievais do Ocidente em face de todas as outras – a quebra do direito senhorial. Nas cidades centro e norte-européias originou-se o conhecido dito: “o ar da cidade liberta”. (WEBER, apud, RIBEIRO, p. 43)

Ribeiro, antes de se aproximar do problema da violência nos dias atuais, fala em uma inclusão urbana como uma necessidade tendo em vista a realidade de “urbanização sem cidades”. Tal evento se dá pelo fato de haver um descompasso entre três focos que deveriam coexistir: o democrático, o liberal e o social, representados respectivamente pela cidade (polis), cidadania (civitas) e sociedade (societas). Desse modo, o descompasso existente se dá pelo fato de que se aumenta a cidade, mas a cidadania (mutuo respeito) permanece hipertrofiado pela inexistência de uma sociedade (sistema de proteção social contra a ameaça do livre jogo do mercado).
Queiroz afirma:

[...] a dinâmica urbana da cidade latino-americana tem como base a apropriação privada [...], fazendo com que os segmentos já privilegiados desfrutem de mais privilégios, [...] ao mesmo tempo em que grande parte da população, formada pelos trabalhadores, é espoliada, por não terem reconhecidas socialmente suas necessidades de consumo habitacional (moradia e serviços coletivos), inerentes ao modo urbano de vida. O resultado é a urbanização sem cidades. (RIBEIRO, p. 43)
Assim sendo, o autor afirma que a carência habitacional está no centro do problema urbano brasileiro, uma vez que grande parte da população, por ser excluída do mercado imobiliário, é inserida marginalmente nas cidades.
Na mesma linha, a segregação e a exclusão habitacional favorece uma vulnerabilização social, decorrente da precarização do emprego, do desemprego e, conseqüentemente, ocorrendo a perda de renda. Processo que se soma ao empobrecimento social, fruto da desestruturação da célula mãe da sociedade, a família, do isolamento social e da desertificação cívica dos bairros abastados e marginalizados. O resultado de tudo isso já conhecemos: abre-se a porta para o surgimento de grupos de organização comunitária e autônoma com o intuito de compensar o abandono pelo Estado, e paralelo a isso, decorre um pluralismo jurídico, onde o direito não-oficial conflita com o oficial que muitas vezes lá não chega. Estamos falando do cerne da célula crime organizado, do tráfico e da difusão da violência. Queiroz com brilhantismo relaciona isso ao feudalismo, onde antes era uma relação de dominação pessoal com o senhor feudal, e hoje, analogicamente, poderíamos falar: na periferia, uma relação com os senhores donos dos morros; e nos núcleos das metrópoles (a cidade alta segundo Queiroz) com os senhores donos do capital e das outras formas de riqueza. (RIBEIRO, p. 43)

3. INSTRUMENTALIDADE DA VIOLÊNCIA

Aqui talvez esteja a mais bem colocada caracterização da violência. Hannah Arendt, teórica política alemã, citada em Violência Extra e Intramuros, artigo de Alba Zaluar e Maria Cristina Leal, diz o seguinte: “a violência é um instrumento e não um fim” (ARENDT, apud, LEAL; ZALUAR, 2001, p. 147), ou seja, ela é um meio de se alcançar algo, seja dominação, status, poder, enfim, ela não é um fim em si mesmo, não se faz violência puramente por fazê-la.
Tavares dos Santos, também citado nesse artigo, diz ser a “violência um dispositivo de controle, aberto e contínuo.” e também como um “dispositivo de excesso de poder” (SANTOS, apud, LEAL; ZALUAR, 2001, p. 148)
Quando pensamos em tráfico de drogas, homicídios e etc, vemos com nitidez a instrumentalidade da violência em sua forma mais simples, a de ser meio para a busca do capital do tráfico de drogas e armas. É com base na violência, amedrontando e assediando os jovens que os donos dos morros os trazem e convencem a entrarem para o mundo do tráfico.
Não menos diferente, é a instrumentalidade da violência nas guerras promovidas durante a história da humanidade. Ali, o que se pretendia era o poder, o status, a dominação, e o capital, sempre por trás de senão todas, de grande parte dos fins queridos através da violência. Aqui vale a pena fazer uma observação para o filme O senhor das Armas, baseado em fatos reais, com Nicolas Cage, contrabandista de armas, e que fazia negócios bilionários com chefes do poder executivo de países afora, que bem retrata essa idéia de instrumentalidade da violência em busca do capital com os dizeres do protagonista: “Admito que um tiroteio é bom para os negócios, mas queria que as pessoas atirassem e errassem. Mas que continuassem atirando”.

4. VIOLÊNCIA CRIMINAL

Restringindo o campo da violência, passamos à análise da violência criminal (homicídios, roubos, furtos, tráfico de drogas e armas, etc), e ao falar dela logo vem o questionamento sobre sua origem, suas causas. No entanto, falar de violência e crime não são fáceis. Sobretudo, é necessário evitar a armadinha da generalização. (SOARES, 2006, p.4)
Luiz Eduardo Soares, autoridade em segurança pública, com brilhantismo e clareza ímpares, diz que não existe o crime, no singular. “Há uma diversidade imensa de práticas criminosas, associadas a dinâmicas sociais muito diferentes. Por isso, não faz sentido imaginar que seria possível identificar apenas uma causa para o universo heterogêneo da criminalidade.” (SOARES, p.4)
Sobre a impossibilidade da generalização, Soares exemplifica:

“[...] roubos praticados na esquinas por meninos pobres, que vivem nas ruas cheirando cola, abandonados à própria sorte, sem acesso à educação e ao amor de uma família que os respeite, evidentemente expressam esse contexto cruel [...] varejo de drogas, nas periferias: juventude ociosa e sem esperança é presa fácil para os agenciadores do comércio clandestino de drogas, não é difícil recrutar um verdadeiro exército de jovens quando se oferecem vantagens econômicas muito superiores ao mercado comum e benefícios simbólicos que valorizam a auto-estima, atribuindo poder aos excluídos [...]. Por outro lado, os operadores do tráfico de armas, que atuam no atacado, lavando dinheiro no mercado financeiro internacional, não são filhos da pobreza ou da desigualdade. Suas práticas são estimuladas pela impunidade. Em outras palavras, pobreza e desigualdade são e não são condicionantes da criminalidade, dependendo do tipo de crime, do contexto intersubjetivo e do horizonte cultural a que nos referimos”. (SOARES, p. 4;5)

Não basta, porém, apenas falar sobre a violência sem apresentar quaisquer perspectivas para reduzi-la. Soares disserta dizendo que deve ser feita através de políticas preventivas e repressivas. Políticas preventivas seriam políticas que não são estruturais e que produzem resultados em curto prazo, e, portanto, não agem sobre as macroestruturas socioeconômicas do país. Alerta desde então, que políticas preventivas podem ser eficientes mesmo não atuando sobre macroestruturas, e argumenta: dizer que estaria enxugando gelo é equívoco (SOARES, 2006, p.5;6). Admite, no entanto, que são políticas superficiais e baratas, e que não impedem o retorno do problema que se deseja evitar, mas categoriza: mas elas salvam vidas, reduzem danos e sofrimento e tornam a vida mais feliz (SOARES, 2006, p.6).. E por conseguinte alega:

“em segurança pública, as conseqüências tornam-se causas no movimento subseqüente do processo social: determinadas condições favorecem a prática de crimes; os crimes expulsam empresas, o que aumenta o desemprego, ampliando as condições para o crescimento de certas formas de criminalidade, etc. E o ciclo dá mais uma volta em torno do mesmo eixo. (SOARES, p. 6)

Disso se conclui que o crime se torna a própria causa do crime (SOARES, 2006, p.7). Desse modo, atuando sobre o crime, interrompe esse carrossel perverso, pois, menos crime é igual a melhor qualidade de vida, melhor economia, melhor vida social, e conseqüentemente, menos crime. Portanto, ainda que haja superficialmente sobre as causas imediatas daqueles, reduzindo o número de vítimas, a taxa de risco, o grau de propagação do medo, e a sensação de insegurança, acabam por ser muito mais que enxugar gelo. (SOARES, 2006, p.7)
No mais, o que deve sempre ser evitado é o problema da generalização e unificação de medidas. Não há modelos únicos e gerais, aplicáveis em todo o país (SOARES, 2006, p.7). Cada região, cada cidade, deve possuir suas próprias ações contra a criminalidade, pois, por exemplo, causas e condições para a disseminação da violência criminal que incidem na região Sudeste, não são as mesmas que incidem na região Nordeste. Há de ser observado cada território com especificidade e com foco diferenciado, e talvez esteja aí a grande idéia de como agir contra a violência criminal, ou seja, quanto aos diversos territórios brasileiros, deve-se tratar igualmente os iguais, e desigualmente os desiguais na medida de sua desigualdade, como bem dizia Aristóteles ao dissertar sobre o princípio da igualdade, dito como substancial, e não meramente formal.

5. CONCLUSÃO

No mundo atual, moderno, e ferozmente veloz, o que não vemos mais são os laços de amizades e de mútuo respeito entre os que aqui vivem. Não querendo simplificar um tema que não é, e sem querer ser superficial, penso que há uma grande causa por trás de todos esses problemas relacionados com a violência: A compaixão e a solidariedade que a cada dia se soçobra em nossa sociedade, se é que pertencemos a uma. Diuturnamente aumenta-se o individualismo, e viver em sociedade, efetivamente, começa a ficar em segundo plano. Por trás disso, todo um aparato complexo e ao mesmo tempo simples: o capitalismo, em sua mais selvagem concepção, onde tudo gira em torno do status e dinheiro, numa soma perversa em busca do poder, e ora, se há alguém que possui muito poder, certamente haverá alguém que nada possui, e daí decorre a tal dominação que falamos.
Ademais, o que não podemos é isolar, ignorar e tratar com indiferença classes teoricamente mais carentes financeiramente. Estigmatizar que na favela só existe criminosos é o primeiro passo para continuar com esse vício pré-conceituoso. Moradores de lá, que segundo estatísticas, em sua maioria, jovens e negros, entram no mundo do crime, não o faz por opção, mas por não enxergarem outro caminho. Cabe aqui exemplificar com uma máxima antiga, daquelas que se escuta de seus avôs que diz o seguinte: Se colocarmos em um recém-nascido um óculos azul, e assim deixar crescer e permanecer com eles, ela enxergará o mundo como se fosse azul. Portanto, infelizmente, jovens que vivem no mundo do tráfico e de drogas, não conseguem ver outra realidade senão aquela que estão inseridos, e enxergam esta, como a única realidade.
Inobstante, não cabe dizer que a violência é algo inerente às classes populares. Muito pelo contrário, a violência sempre existiu (através da fome e miséria) e sempre esteve ligada às classes dominantes, até porque é por ela que se dá a dominação de classes. A violência não é, e nem nunca foi fato novo, e talvez só esteja recebendo tratamento diferente nos dias de hoje porque nunca havia batido às portas da classe média, amedrontado-a. E o porquê disso é a negação do sentimento coletivo da cooperação, da colaboração e da solidariedade, ante uma ideologia imposta de competição e de luta pela sobrevivência entre homens, em que o que se busca é glória, poder e capital.






REFERÊNCIAS

SOARES, Luiz Eduardo. Segurança Pública: presente e futuro. São Paulo, v. 20, n. 56, jan./abr. 2006.

ZALUAR, Alba; LEAL, Maria Cristina. Violência Extra e Intramuros. São Paulo, v. 16, n. 45, fev. 2001.

RIBEIRO, Luiz Cesar de Queiroz. Cidade e Cidadania: Inclusão urbana e justiça social. São Paulo, v. 56, n. 2 abr./jun. 2004.

MELLO, Celso Antonio Bandeira de. Conteúdo Jurídico do Princípio da Igualdade, SP, BR: Malheiros Editores, 2002. 3a.ed.

O Senhor das Armas. Produção de Andrew Niccol. Nord, France: EMC Produtora e Arclight Films Distribuidora, 2005. DVD (122 min.): son., color., legendado. Port.